
O mês de janeiro inaugura oficialmente o calendário de execução para empresas de todos os portes, mas neste ano o desafio vai muito além de abrir as planilhas de orçamento. A entrada em vigor de novas regras da transição tributária transforma o ambiente de negócios em um terreno complexo, onde a falta de um mapeamento claro dos novos impostos pode levar o empreendedor a cometer erros de cálculo que corroem o lucro silenciosamente.
A convivência perigosa entre dois sistemas
O maior risco operacional para este início de ano é a dualidade. As empresas não estão apenas migrando para um novo modelo; elas estão, na prática, operando dois sistemas simultaneamente durante a fase de transição da Reforma Tributária.
Pesquisadores do Insper alertam que o "custo de conformidade" tende a aumentar temporariamente nesta fase, exigindo que as equipes financeiras dominem tanto as regras antigas (como ICMS e ISS) quanto as novas diretrizes do IVA Dual (CBS e IBS).
Para o empresário, isso significa que a atenção deve ser redobrada na emissão de cada nota fiscal. Um erro de classificação tributária agora gera um passivo dobrado, pois afeta as obrigações acessórias de dois regimes distintos. A adaptação exige que a liderança encare a contabilidade não como um mal necessário, mas como o centro de inteligência que vai ditar a viabilidade da operação nos próximos meses.
Preparação estratégica para mudanças tributárias
Empresas e empreendedores devem iniciar sua preparação com uma análise profunda dos impactos práticos da reforma. Isso envolve revisar contratos, precificação e fluxo de caixa sob as novas regras. Entender os detalhes operacionais desde já é fundamental para evitar riscos como a rejeição de notas fiscais e interrupções no faturamento a partir de 2026.
A precificação cega destrói a margem
Muitos negócios iniciam janeiro mantendo as tabelas de preço do ano anterior, ignorando que a composição do custo mudou. A alteração nas alíquotas e na lógica de creditamento (o que a empresa pode abater de imposto) impacta diretamente a margem líquida. Se o seu preço não reflete a nova carga tributária, você pode estar subsidiando a venda com o próprio capital, entregando o produto com prejuízo real.
É urgente realizar uma reengenharia de preços. Não se trata apenas de repasse inflacionário, mas de entender a nova carga efetiva sobre cada SKU (unidade de estoque).
O empreendedor que domina essa nova matemática sai na frente, pois consegue precificar de forma justa e competitiva, enquanto concorrentes desatentos ou perdem dinheiro vendendo barato demais, ou perdem mercado vendendo caro por medo da incerteza.
Saneamento de cadastro é a base da tecnologia
A tecnologia é a única ferramenta capaz de processar o volume de dados exigido pelo novo sistema, mas ela não faz milagres com dados ruins.
Um estudo global da Deloitte sobre transformação tributária aponta que a qualidade dos dados mestres é o principal gargalo para a automação fiscal eficiente. Em janeiro, a prioridade operacional deve ser o "saneamento de cadastro".
Isso significa revisar a classificação fiscal (NCM) de todos os produtos e serviços. Um cadastro errado no sistema ERP replica o erro em escala, gerando multas automáticas e bloqueios de mercadoria. O ajuste de processos começa na limpeza da base de dados, garantindo que a inteligência artificial e os softwares de gestão tenham informações confiáveis para calcular os tributos corretamente.
O impacto no capital de giro exige liquidez
As mudanças nos prazos de recolhimento dos tributos podem criar um descasamento perigoso no fluxo de caixa logo no primeiro trimestre. O modelo de cobrança do novo sistema tende a ser mais imediato, reduzindo o tempo que o dinheiro fica na conta da empresa entre a venda e o pagamento do imposto. A gestão da liquidez torna-se uma competência de sobrevivência.
Empresas descapitalizadas podem sofrer para honrar compromissos se não projetarem esse novo ciclo financeiro. A adaptação requer uma análise criteriosa dos prazos de recebimento de clientes versus os prazos de pagamento ao fisco. Negociar antecipações ou linhas de crédito preventivas em janeiro é uma medida de prudência para evitar a asfixia financeira causada pelo novo calendário fiscal.
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Networking na cadeia de suprimentos
Neste novo cenário, o regime tributário do seu fornecedor afeta diretamente o seu crédito fiscal. O networking estratégico deve ser usado para alinhar a cadeia de suprimentos. É fundamental dialogar com parceiros comerciais para entender como eles estão se adaptando, pois a ineficiência tributária do seu fornecedor pode encarecer o seu produto final.
Empreendedores que fortalecem laços com sua cadeia conseguem negociar condições que mitiguem os impactos financeiros. Além disso, a troca de informações em grupos empresariais e associações de classe funciona como um radar, antecipando problemas práticos que ainda não foram mapeados pela teoria, permitindo ajustes de rota mais rápidos do que quem tenta resolver tudo sozinho.
Conformidade como diferencial de mercado
Por fim, a adaptação correta não deve ser vista apenas como um fardo burocrático, mas como uma oportunidade de posicionamento. A PwC, em seus relatórios sobre confiança nos negócios, destaca que a transparência fiscal é um pilar crescente na avaliação de valor de uma empresa (Valuation) e na atração de investidores.
Empresas que demonstram controle e compliance neste momento de virada transmitem solidez. A organização fiscal torna-se um ativo de reputação, facilitando o acesso a crédito bancário com taxas melhores e atraindo parceiros que buscam segurança jurídica.
Quem navega bem na selva tributária de janeiro constrói uma estrada pavimentada para o crescimento durante o resto do ano.



